
| Pa Nu Skrebe Na Skola - Vamos conversar na escola |
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Página 5 de 8 Diz-se, no texto do decreto citado, que " é imprescindível que haja uma política linguística clara e com reflexos positivos na política de ensino" e que "a Reforma do Sistema Educativo deverá implementar uma estratégia de ensino do Crioulo, tendo em devida conta as implicações da introdução da nossa língua dos curricula." Para tanto, parece ser também imprescindível a "formação de quadros": "o país terá de planificar a formação de técnicos necessários à implementação da política linguística, tendo em consideração as necessidades do ensino formal". Estas afirmações apontam para o facto de ser prematuro considerar o ensino do crioulo e em crioulo, nas escolas, enquanto, entre outros factores, não se derem todos os passos para a "padronização da escrita" (a levar a cabo por "uma estrutura científica" que deverá ser constituída para o efeito) e enquanto não se criarem todas as condições (nomeadamente, humanas) para a sua implementação e divulgação. Assim sendo, poderíamos ser levados a pensar não haver justificação para, no âmbito do projecto Nu ben papia na skola, fazermos uma reflexão sobre o modo de escrever crioulo, actualmente, nas escolas do ensino básico de Cabo Verde. Por maioria de razão, menos se justificaria ainda que o fizéssemos a pensar nas escolas portuguesas, apesar de aí encontrarmos um número elevado de alunos falantes de crioulo caboverdiano. No entanto, aqueles que, no quotidiano, lidam com a realidade escolar, sabem como é urgente, quer do ponto de vista pedagógico, quer do ponto de vista didáctico, ter à disposição um modo sistemático e codificado de representar graficamente a língua materna dos seus alunos. Tomemos o caso português. Muitas são as escolas que contam com uma percentagem elevada de alunos de origem caboverdiana. Num recente estudo realizado pelo ILTEC (Instituto de Linguística Teórica e Computacional)[10] em 610 escolas do primeiro e do segundo ciclos de 11 concelhos da Grande Lisboa, encontramos, nas 410 escolas que responderam ao inquérito, 2992 alunos que dizem falar caboverdiano em casa e 1970 que dizem falar caboverdiano na escola, com os colegas. Perante tal situação, os professores, mesmo pondo provisoriamente de parte a possibilidade de um ensino bilingue, têm ainda duas alternativas. Ou ignoram a língua materna dos alunos, ou, pelo contrário: - valorizam-na explicitamente, valorizando, ao mesmo tempo, o saber do aluno e a sua identidade linguística e cultural. - compreendem que o aluno está num processo de aprendizagem da língua portuguesa e que, por vezes, o conhecimento que tem da sua língua materna interfere (quer a nível do léxico, quer a nível das outras áreas da gramática, quer mesmo a nível das regras de uso) nesse processo, podendo impedir que ele reconheça as regras específicas da língua portuguesa e assim possa progredir. - reconhecem, também, que não é a inibição ou proibição do uso da língua materna que melhora a aprendizagem do português. - admitem, entre os vários métodos que aplicam, o recurso à análise contrastiva entre o crioulo do aluno e o português. - procuram eles próprios conhecer a língua caboverdiana (bem como a sua cultura). Felizmente, em Portugal, já há muitos educadores de infância e professores que têm esta atitude e esta perspectiva, embora não tenham ainda, na maior parte dos casos, formação nem instrumentos que lhes permitam pôr em prática, plenamente, as suas intenções. Um dos instrumentos que falham é, precisamente, a escrita. Algumas das actividades didácticas que favorecem a concretização dos pressupostos acima e que envolvem a escrita são, por exemplo, a elaboração de vocabulários temáticos com palavras em várias línguas, incluindo a língua materna; a criação de um texto colectivo para uma peça de teatro com personagens que falam crioulo; a redacção de jornais em que se incluem pequenas estórias, anedotas ou notícias na língua de origem das crianças; a recolha, por parte dos alunos, de expressões, adivinhas, etc., produzidas pelos familiares; a comparação entre expressões em português e em crioulo para compreensão das diferenças gramaticais e das possíveis interferências, etc. Saber escrever, no quadro ou no papel, com segurança, as expressões do aluno, sobretudo em textos que vão ser publicados, contribui para atribuir valor e legitimidade a uma língua que, muitas vezes, é sentida por este como desprezada ou pouco importante, mas que é a sua. Por outro lado, a compreensão de que diferentes línguas se escrevem de diferentes maneiras permite criar, no aluno, a ideia (difícil mas fundamental para o progresso da aprendizagem) de que existe uma grande distância entre escrita e oralidade. |








