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Em muitas partes do mundo em que há línguas de tradição oral, é frequentemente a urgência imposta pelas necessidades do ensino que acaba por incentivar e até determinar, em termos oficiais, as decisões de instrumentalização dessas línguas.

O facto de termos de alfabetizar em crioulo obrigou, imediatamente, a considerar, para além das questões metodológicas específicas, a necessidade de produzir manuais com textos de referência que servissem de base à aprendizagem e ao desenvolvimento das capacidades de leitura dos alfabetizandos.

Ora era condição sine qua non, para a produção dos textos, a existência de um sistema gráfico.

Não havendo uma aceitação generalizada (nem social, nem mesmo política) da chamada proposta do Mindelo, foi a consultora de linguística do projecto de alfabetização bilingue[3] incentivada a fazer a sua própria proposta de grafia, num prazo útil para o desenvolvimento do projecto e sua aplicação no terreno que, numa primeira fase, seria na ilha de Santiago, prevendo-se que a experiência fosse, posteriormente, alargada a outras ilhas de Sotavento e de Barlavento.

É assim que surge uma nova grafia para representar o crioulo de Santiago, variedade em que foram escritos os primeiros manuais. Trata-se, naturalmente, de uma grafia e não de uma ortografia (como o simples facto de ser confinada a uma ilha revela...) que, apesar da sua motivação pragmática e imediatista, foi elaborada a partir do estudo de uma bibliografia especializada (nomeadamente, sobre modelos ortográficos, sobre a passagem à escrita de outras línguas crioulas e sobre as relações entre a escrita e a política e a planificação linguísticas) e de um trabalho de investigação sobre a gramática e o léxico do crioulo de Santiago, fundamental para, entre outros aspectos, fixar a forma das palavras e grafar as suas relações gramaticais e não apenas transcrevê-las alfabeticamente.

Na verdade, não basta saber que um determinado som se escreve p e outro a ou m... É preciso saber, por exemplo, como vimos acima, que pa é uma palavra (uma preposição) e que o som que se ouve ou diz no final de pam corresponde, também, a uma palavra (o pronome pessoal sujeito na 1ª pessoa do singular).

Do mesmo modo, se os falantes usarem diferentes formas fónicas para uma mesma palavra, como por exemplo baléi ou balai (port. balaio), há que decidir qual delas há-de figurar no dicionário e servir como "representante" de todas as pronúncias existentes ou possíveis.

A nova grafia é apresentada em 1989, na cidade da Praia, juntamente com todas as actividades, documentos de descrição linguística e materiais elaborados, até então, no âmbito do Projecto piloto, num encontro a que se deu o nome de Fórum sobre Alfabetização Bilingue (23 e 24 de Junho de 1989). O texto contendo a Proposta de Grafia e os argumentos que a opõem à proposta do Mindelo é nesse mesmo ano publicado pela autora, de forma abreviada, na Revista Internacional de Língua Portuguesa[4], tendo a fundamentação teórica sido apresentada no documento Normalização e Ortografia: Tipos de Problemas e na comunicação Odju ka ten pastor, mas é midjor si bu prende odja, publicada nas Actas do Fórum.

Essa mesma grafia tem vindo a ser aplicada com sucesso na produção de textos escritos e na transcrição de textos orais, no âmbito da cadeira de Crioulos de Base Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL)[5].

É na sequência da discussão do documento com os defensores da anterior grafia e com os participantes no Fórum que, por proposta do então Ministro da Educação, Corsino Tolentino, se forma uma Comissão Consultiva que tem como incumbência analisar a nova proposta e sobre ela redigir um parecer que, a ser favorável, alteraria, nos pontos relevantes, os anteriores hábitos de representação gráfica.

Essa Comissão[6] (liderada por Manuel Veiga, na parte respeitante aos estudos linguísticos) emite, em 24 de Agosto de 1989, um parecer que se mostra favorável, na sua globalidade, embora com algumas alterações, à proposta de grafia do Fórum.

Apesar de os seus subscritores afirmarem que "o parecer, no que tange à instrumentalização da língua caboverdiana, tem a força apenas de uma proposta, num contexto de experiência piloto pontual e localizada no tempo e no espaço" e que "o alfabeto e a escrita da língua caboverdiana transcendem a experiência piloto que se pretende levar a cabo e, por conseguinte, também o âmbito desse mesmo parecer" (p.24), na verdade, a proposta do Fórum e as recomendações por ela suscitadas acabam por ultrapassar os limites da experiência (cujos materiais foram publicados na nova grafia[7]) e impor o abandono da grafia do Colóquio do Mindelo, na sua forma original.


 
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