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A necessidade de afirmação da identidade nacional recentemente conquistada, por sua vez, criou em alguns o desejo de ruptura com a língua da colonização. No entanto, prevaleceu, desde muito cedo, uma linha de pensamento que viria a informar a política linguística caboverdiana: a consciência das vantagens de valorização das duas línguas, em pé de igualdade, e da promoção, junto dos falantes, de um bilinguismo funcional - domínio de ambas as línguas e capacidade de as usar, em função dos contextos.

A oficialização do crioulo surge, então, como um horizonte possível e desejável, embora eventualmente longínquo, dependendo, entre outros factores, de um trabalho sistemático prévio de investigação sobre a língua (que a perspectiva colonial sempre tinha desencorajado).

É assim que, em Abril de 1979, surge o primeiro Colóquio sobre a problemática do estudo e da utilização do Crioulo, conhecido como "Colóquio do Mindelo", que reúne linguistas e investigadores nacionais e estrangeiros, de várias áreas das Ciências Humanas, de algum modo interessados no estudo das línguas crioulas ou no desenvolvimento sociolinguístico da comunidade caboverdiana. É um encontro de experiências, de reflexões e de propostas de investigação, uma vez que não havia ainda, nessa altura, estudos suficientemente desenvolvidos que permitissem chegar a conclusões de carácter linguístico nem à definição de políticas linguísticas imediatamente aplicáveis.

É neste contexto que, pela primeira vez, se faz uma reflexão sobre o modo de representar graficamente a língua crioula. Recorrendo ao conhecimento de outras experiências de escrita de línguas africanas de tradição oral, alguns investigadores presentes desenham um primeiro esboço de alfabeto para o crioulo que apresentam como proposta a ser, necessariamente, testada e eventualmente reformulada, em função, entre outros factores, da posterior análise fonológica e fonética que se impunha.

No entanto, mesmo antes de se efectuarem esses estudos, alguns autores, legitimamente desejosos de transmitir as suas ideias na língua nacional e conscientes da necessidade de contrapor um sistema regrado e uniforme de escrita ao carácter aleatório das escritas espontâneas, começaram desde logo a aplicar a referida proposta nos seus escritos literários e metalinguísticos.

Surgem, assim, obras romanescas, como Oju d'Agu, de Manuel Veiga, e de divulgação das tradições orais, como Na Bóka Noti, de Tomé Varela da Silva, que, apesar do reconhecimento do seu valor enquanto obras, tiveram, em geral, no que diz respeito à grafia, um impacte negativo na comunidade intelectual caboverdiana.

Por três razões: primeiro, porque utilizavam grafemas e diacríticos que não tinham correspondente na tradição de escrita em português, aquela em que os potenciais leitores tinham sido alfabetizados, o que dificultava grandemente a descodificação e a leitura fluente (por exemplo, ^c, ^s, ^z, ^j, ^n e ^l muito dificilmente eram reconhecidos como "tch", "ch", “j”, “dj”, “nh” e “lh”, respectivamente); segundo, porque os falantes de outras ilhas que não a de Santiago, em especial os das ilhas de Barlavento, não encontravam representações gráficas que satisfizessem as necessidades das suas variedades de crioulo; em terceiro lugar, muitos caboverdianos interpretaram o uso recorrente do novo alfabeto como sendo sinal de um facto consumado e imposto do exterior e não o mero exercício ou experimentação de uma solução gráfica que tinha sido apresentada com o estatuto devido, i.é, como proposta a validar, quer no decurso de investigações posteriores, quer no confronto com os interesses da comunidade.

Entre aceitações e rejeições, por vezes contundentes, foram coabitando, durante mais dez anos, esta nova proposta e as manifestações mais diversas de escrita espontânea, sem que houvesse qualquer decisão oficial sobre o caminho a dar à escrita do crioulo.

Entretanto, em 1987, surge, no Ministério da Educação, motivado e apoiado pela Cooperação Suíça em Cabo Verde, um projecto novo de alfabetização de adultos (que viria a durar até 1992). Tratava-se, inicialmente, por vontade da entidade promotora, e na sequência das directrizes da UNESCO (IV Conferência Internacional de Educação de Adultos, 1985) que consignam o direito de todos os indivíduos ao ensino em língua materna, de um projecto de alfabetização em crioulo. Por acordo dos consultores estrangeiros e dos nacionais que integravam a equipa[2], bem como do Ministro da Educação, o projecto passou a ter como objectivo a alfabetização não só em língua materna, mas também em língua portuguesa, tomando a designação de Projecto Experimental de Alfabetização Bilingue: os alunos seriam alfabetizados numa primeira fase em crioulo (a língua que dominavam desde a infância) e, posteriormente, em português (enquanto língua segunda). Procurava-se, assim, não só ser realista (não haveria vantagem em alfabetizar apenas em crioulo sabendo que a única língua oficial era o português), como reconhecer e promover o valor da língua materna e ainda melhorar os métodos didácticos e o sucesso educativo, pondo em prática a ideia prevalecente das vantagens e da necessidade política de um bilinguismo funcional em Cabo Verde.


 
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