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Escola
Até há muito pouco tempo, a língua caboverdiana não tinha uma grafia (uma forma de representação gráfica) oficial, definida e decretada pelo governo e pela assembleia nacional. A língua crioula caracteriza-se, pois, como língua de tradição oral. Na verdade, em Cabo Verde, o crioulo é uma língua nacional, falada por todos, desde a infância, mas ainda não tem o estatuto de língua oficial que, por enquanto, é exclusivo da língua portuguesa. Esta, por seu turno, não é falada por toda a população, havendo muitos jovens, sobretudo no interior das ilhas, que só com ela contactam à entrada para a escola, o que, em muitos casos, acontece tardiamente, por volta dos sete ou dos oito anos de idade.

Para que uma língua tenha o estatuto de oficial é necessário que sofra um processo de normalização e de instrumentalização. A normalização consiste na escolha de uma variedade (regional, social...) para servir como modelo (padrão) e como base para a instrumentalização (elaboração de gramáticas e de dicionários, definição de uma ortografia, etc.). Uma vez oficializada, a língua passa a ser usada e ensinada na escola que, a par dos meios de comunicação de massas e da produção literária, constitui um suporte privilegiado e imprescindível do seu novo estatuto.

Entre a adopção de uma ortografia e a sua aceitação e aplicação sistemática no seio da comunidade medeia, pois, um período relativamente longo que passa, entre outros factores, pela sua aprendizagem por uma nova geração de alunos.

Os caboverdianos - que aprenderam a ler e a escrever em português - têm utilizado, à sua maneira, a ortografia da língua portuguesa para escreverem em crioulo, quando a necessidade ou o desejo se impõem: em poemas, recados, cartas aos familiares, letras de canções, informações ao público em áreas importantes como a saúde, artigos de jornal, recolhas de tradições orais, etc.

Trata-se de uma escrita espontânea, não regulada e, por isso, muito variável e quase sempre incoerente.

Eis um bom exemplo, retirado de uma carta escrita por um falante de Fajanzinha-Mosteiros (ilha do Fogo) (11 de Abril de 1987) ao programa Kauberdi di nos pa nos tudu[1]:

Bom ami pam cá dixá cusas passá um tem tchéu di frá nhôs, má qui cá ta bai só di ês um bês; Um pô nhâ balaî riba tchada cabeça n' pô ta subí pam lebá pêxe casa fidé di Mioda, tchiga cansado um sintá bêra porta, Lionarda mudjê di Fidé dam cafê cú batata assadu, dento tumá cafê um ódjâ um navio branco li na pé di terra [...]

Bom, eu, para não deixar passar as coisas (a oportunidade), tenho muito que vos dizer, mas não vai tudo desta vez só.

Pus o meu balaio à cabeça e pus-me a subir para levar peixe a casa do Fidel de Mioda. Cheguei cansado, sentei-me à porta. A Leonarda, mulher do Fidel, deu-me café com batatas assadas. Quando estava a tomar o café vi um navio branco perto da terra [...].


Na escrita espontânea, por vezes, a mesma palavra muda de grafia, mesmo quando escrita pelo mesmo indivíduo. É o caso da primeira pessoa do singular do pronome pessoal sujeito (port. eu), que ocorre como m (em pam cá dixá cusas passá), um (em um tem tchéu) e n' (em n' pô ta subí).

Também é comum a dificuldade em reconhecer os limites das palavras crioulas, uma vez que os falantes, embora as usem naturalmente na oralidade, nem sempre as identificam enquanto unidades autónomas, pois não têm o hábito de as analisar gramaticalmente, nem costumam vê-las escritas.

É assim que, na expressão pam lebá pexe (para eu levar peixe), o pronome (representado aqui por m) está associado à preposição anterior (pa), como se se tratasse de uma única palavra.

Uma outra característica comum é a indecisão entre uma forma de grafia decalcada do português (cabeça, branco, terra) e uma grafia mais próxima da pronúncia crioula (assadu, tumá...).

Antes da independência de Cabo Verde, em 1975, embora muitos intelectuais caboverdianos tenham lutado pela dignificação do crioulo como factor fundamental de afirmação da caboverdianidade (nomeadamente o grupo dos Claridosos), estudando-o, promovendo-o e, sobretudo, usando-o na expressão literária, nunca se perfilou a ideia da oficialização do crioulo nem a da sua normalização.

A língua portuguesa, como língua oficial, parecia servir os interesses de Cabo Verde que, à data da independência, contava com cerca de 70% de analfabetos adultos.

Por outro lado, mesmo após a independência, instalou-se, em muitos, a ideia errónea de que a oficialização do crioulo implicaria o abandono do português, língua que, dado o seu peso internacional (para além das relações históricas, tradicionais e afectivas) era imprescindível à sobrevivência e ao desenvolvimento do país.

A tendência para o alargamento da escolaridade obrigatória a toda a população veio, no entanto, fazer reequacionar a questão. Começaram a chegar à escola crianças e adultos monolingues (ou com um conhecimento muito incipiente da língua oficial) para os quais não havia ainda suficiente número de professores de língua portuguesa com formação adequada.


 
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