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Tarrafal: Memória da vergonha PDF Imprimir e-mail

Há 70 anos, Salazar criou, em Cabo Verde, o campo de concentração do fascismo. Fotografia dessa história suja, através da tese de uma investigadora cabo-verdiana

Depois de muito escarafunchar testemunhos individuais e colectivos sobre o Tarrafal, Nélida Brito cumpriu, há algum tempo, uma promessa feita a si própria: levou uma das filhas, menina de 14 anos, ao que resta do Campo de Concentração. «Quis que ela visse o lugar de uma das maiores vergonhas do colonialismo.» Nascida em Angola há 46 anos, mas de nacionalidade cabo-verdiana, esta investigadora é autora de uma tese de mestrado em História Contemporânea sobre o Tarrafal e a memória dos seus prisioneiros. Um trabalho a partir do qual a VISÃO pôde fazer um retrato da vida dos homens «a quem não foi feita justiça».

O que era e para que servia?

O Campo de Concentração foi criado no Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, a 23 de Abril de 1936, e inaugurado em Outubro desse ano.
O fascismo chamou-lhe Colónia Penal, mas inspirou-se nos exemplos da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini para reprimir e matar, longe da vista dos portugueses, alguns dos opositores do regime.

Por que foi escolhido o Tarrafal?
A opção, após estudo cuidadoso, foi intencional. De todas as ilhas do arquipélago de Cabo Verde, Santiago é uma das mais inóspitas, devido ao clima e à sua insalubridade. Na época das chuvas, a ilha é muito propícia ao aparecimento de mosquitos e do paludismo. À época, era um pântano inabitável para um europeu, um isolamento de morte lenta, entre o mar e as montanhas, debaixo de um calor tórrido e sem água potável. No início, os primeiros 152 deportados foram distribuídos por 12 barracas de lona, 13 homens em cada uma.

Qual foi a duração do Campo?
Funcionou durante 17 anos, entre 1936 e 1954, até ser suspenso temporariamente. Para ali foram levados 340 presos, totalizando 2 mil anos, 11 meses e cinco dias de detenção. Morreram trinta e dois.

O que era a «frigideira»?

Inaugurada em 1937, após uma tentativa de evasão, era a cela de isolamento, uma caixa rectangular de cimento, sem janelas, verdadeiro forno crematório.
A falta de ventilação e de renovação de ar fazia com que o sol concentrasse no interior da «frigideira», entre as 10 e as 16 horas, uma temperatura entre os 40 e os 60 graus. «Havia momentos em que a sede era tanta que passávamos a língua pela parede por onde escorriam as gotas da nossa respiração que ali se condensava», contou um sobrevivente. Para lá terão ido 99 presos, o que corresponde a 2 824 dias. As respostas consideradas menos correctas pelos guardas, a perda de uma peça de roupa e a negação ao trabalho por doença eram alguns dos castigos que levavam à «frigideira». A duração máxima das penas foi de 70 dias consecutivos e 135 alternados.

Havia assistência médica?

Em Abril de 1937, Esmeraldo Pais Prata, médico, chegou ao Campo. «Não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito», terá dito, anunciando ao que ia. Durante as «consultas», ironizava com as queixas dos presos. «Está tuberculoso? Tenho muita pena. Vou estudar o seu caso.»

Como vivia a população do Tarrafal?
Miseráveis e esfomeados, os habitantes foram explorados, das mais diversas formas, pelas autoridades fascistas no terreno. De acordo com relatos de sobreviventes, as raparigas do Tarrafal prostituíam-se em troca de promessas e tentadoras ofertas de directores, guardas e oficiais em serviço no Campo. Um dos directores «organizava grandes orgias, que terminavam em bebedeiras com os guardas mais sabujos, para irem depois dormir às cubatas das cabo-verdianas». A grande maioria da população alimentava-se, por vezes, das sobras da comida intragável que era atirada pelos presos para a barrica dos restos.

O que comiam e bebiam os detidos?

A água era inquinada. E os alimentos preparados sem condições de higiene. A partir de certa altura, os próprios presos confeccionaram as refeições, o que ajudou a prevenir algumas doenças. Inicialmente, o pequeno-almoço incluía café e pão. O almoço começou por ser um prato de arroz com carne, mas esta viria a ser eliminada. Ao jantar, era servida uma sopa de arroz ou de legumes secos, e um prato de arroz ou massa, com carne ou peixe. Depois, e durante anos seguidos, o arroz passou a ser o prato de todos os dias. Os animais destinados a alimentação estavam muitas vezes doentes. Dos pulmões dos bois abatidos via-se escorrer pus e alguns porcos sofriam de triquinose. Sendo o Tarrafal uma vila piscatória, o peixe era abundante e barato. A albacora, da família do atum, era a espécie mais consumida. A alimentação piorava ou melhorava consoante o mandato e o carácter dos directores e também à medida que mudava a conjuntura política internacional.

Como era o quotidiano dos presos?

Despertar às 5 horas e pequeno-almoço meia-hora depois. Às seis, formatura. Depois, os presos distribuíam-se por várias brigadas de trabalho forçado. Às 10 e 45, almoçavam e descansavam até às 14 horas. Trabalhavam até às 17 horas e o jantar era servido às 17 e 30. O recolher e a contagem dos detidos fazia-se às 21 horas. Ao sábado, limpavam as casernas e combatiam os parasitas. Aos domingos, descansavam. Às vezes, podiam ler, conversar e escrever à família. Depois, devolviam os lápis e o papel que sobrasse. Houve, porém, um tempo em que os livros estavam proibidos. Nessa altura, os presos dedicavam-se a trabalhos manuais, fazendo pequenas estatuetas de osso, caixas de madeira, jogos de xadrez e afiadores de lâminas.

Quem era o Jeremias?

Em dado momento, proibidos de desenvolver actividades nas alturas de descanso, os deportados afeiçoa-ram-se a alguns animais que iam ao Campo comer. Um deles foi um bode que baptizaram de Jeremias. Tomava banho com os presos, comia do mesmo rancho, dormia a sesta com eles. Chegado o dia de sacrificar o bicho, os presos, esfomeados, não o comeram.

Quantos directores passaram pelo Campo?
Seis, de 1936 a 1954. Manuel Martins dos Reis, José Júlio da Silva, João da Silva, José Olegário Antunes, Filipe de Barros e David Prates da Silva.
O traço comum era a brutalidade e crueldade. E o aproveitamento do parco dinheiro enviado pelas famílias dos presos. Houve, porém, excepções: Prates da Silva, José Júlio da Silva e Olegário Antunes foram considerados pelos presos «os mais humanos».

Havia contacto entre os presos e a população?

Não era permitido. Quando tinham trabalhos fora do Campo, os detidos eram rigorosamente vigiados e a população afastada – até com violência, – com o argumento de ali estarem «terríveis criminosos». Com o tempo, os habitantes do Tarrafal foram percebendo de que lado estava o mal. Porém, em alguns momentos, o contacto existiu. Os presos compravam aos tarrafalenses o que não havia no campo – leite, ovos e laranjas.

Os presos eram racistas?
Este é um ponto polémico da tese de Nélida Brito. A autora, basean-do-se em testemunhos de ex-presidiários do Tarrafal, considera existir da parte de alguns o mesmo pensamento racista do colonizador branco. «Os presos, sempre que se referiam aos cabo-verdianos ou aos guardas angolanos, faziam questão – de uma forma intencional ou não – de mostrar que eram diferentes, que pertenciam a outra raça, apesar de condenarem as injustiças praticadas pelo regime e defenderem a igualdade e liberdade para os povos colonizados. Os detidos (?) acabaram por mostrar julgar ser de uma raça superior, a europeia. O que significa que ser antifascista não significava não ser racista».

O que foi a Universidade Popular?

Olegário Antunes, director do Campo entre 1940 e 1943, permitiu a entrada de livros e papel, a organização de uma estante para «biblioteca», a melhoria da alimentação e a prática de futebol, voleibol, basquetebol e andebol. Nesse período, os deportados organizaram «jogos florais», uma sessão de «fado e guitarradas», num Natal, e até encenaram uma peça de teatro escrita por um preso, que era uma paródia a Hitler e Mussolini. O estudo e a leitura faziam-se no refeitório, «verdadeira universidade popular» durante algum tempo. Os mais instruídos ensinavam os outros. Muitos dos detidos aprenderam a ler e a escrever no Tarrafal. E os ensinamentos iam das línguas à matemática, ciências, economia política e até «formação poética antifascista». Os detidos Bento Gonçalves, fundador do PCP, e o anarquista Mário Castelhano, foram dos mais influentes, em matéria política.

Quem eram os presos?
A esmagadora maioria dos detidos eram comunistas ou anarquistas. Durante a II Guerra Mundial, chegou também ao Tarrafal um pequeno núcleo de republicanos.

Como circulava a informação?

Cartas para a família eram poucas, escritas a lápis (para poderem ser apagadas) e com a proibição de mencionar quaisquer assuntos fora do âmbito familiar. As novidades eram quase sempre trazidas pelos deportados mais recentes. Os jornais não entravam no Campo, mas alguns detidos conseguiam ler os pedaços de papel deixados pelos carcereiros nas retretes. «Rádio Merda», chamavam-lhe. Alguma informação circulou, porém, de forma clandestina, no Tarrafal. Em «livros de mortalhas», com letra miudinha. Por vezes, com a cumplicidade de alguns guardas.

O que aconteceu ao Tarrafal?
Reaberto nos anos 60, para lá foram enviados os que combatiam o fascismo e o colonialismo português em África, nomeadamente jovens das guerrilhas e movimentos de libertação de Angola, Moçambique, Guiné, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde.
O Campo, em avançado estado de degradação, aguarda, há vários anos, a sua passagem a museu.

Miguel Carvalho / VISÃO nº 686 27 Abr. 2006 | Visão Online - http://visaoonline.clix.pt
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