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1ª Página arrow História arrow Cabo Verde: Do seu achamento à Independência Nacional
Cabo Verde: Do seu achamento à Independência Nacional PDF Imprimir e-mail

Considerando-a suficientemente importante, o rei de Portugal, D. João III (1521 – 1557) solicitou em 1507 ao Papa Clemente VII que Ribeira Grande fosse separada da diocese de Funchal (Madeira) à qual estava até então ligada para se constituir numa diocese autónoma. Pela bula Pro Excellenti de 31 de Janeiro de 1533, Cabo Verde e Guiné Bissau constituíram uma diocese com sede na Ribeira Grande que foi elevada à condição de cidade para poder acolher a capital da diocese. Em 1530 já tinha recebido a Carta de Vila.

Ao mesmo tempo que se tornava capital eclesiástica, civil e militar, os poderes da diocese estenderam-se sobre a costa ocidental do continente africano, do rio Gâmbia ao sul do Cabo das Palmas. Á Igreja da paróquia sucedeu a Catedral e um Cabido14 foi constituído por cinco dignitários e doze cónegos. A diocese dispunha já de várias igrejas, um almoxarifado, uma feitoria, numerosas residências de europeus, entrepostos e outras instalações comerciais.

Pouco mais de um século após o desenvolvimento florescente do comércio e de enriquecimento das classes abastadas a cidade, por razões diversas começa a cair em declínio. A insalubridade do seu clima levava muitos dos seus habitantes a deixá-la e a instalarem-se na então povoação da Praia. O porto era demasiado pequeno, com muitos escolhos e maus ancoradouros. Com efeito, com a abertura do porto da Praia em 1612 a cidade de Ribeira Grande perde a sua importância e entra em decadência.

O declínio geral do comércio e do tráfico de escravos, em particular, decorriam da concorrência feita por outras potências e dos frequentes ataques dos piratas. Os mais terríveis foram os perpetrados pelo inglês Francis Drake em 1578 e 1585 e em 1712 pelo francês Cassard. Tendo atacado a cidade com uma força de dois mil homens, queimaram as casas, apanharam escravos e fizeram das mulheres e crianças reféns. Pilharam a cidade por mais de três milhões de libras, avalia-se. Como escreveu Frederico Cerrone na sua História da Igreja de Cabo Verde (subsídios), a cidade ficou como uma necrópole que jamais pode renascer das suas cinzas.

Segundo dados recolhidos por João Estevão15, a evolução dos grupos raciais e o número de escravos e libertos na população total em Cabo Verde apresentou-se assim, durante os três últimos séculos (em percentagem):

Grupos raciais

1731

1807

1900

1940

1960

Brancos2,63,02,63,11,4
Mestiços29,141,564,264,579,0
Negros68,255,533,232,419,6
Libertos51,146,7---
Escravos

17,2

8,5---

As alforrias concedidas, que deviam acompanhar o desenvolver dessa mestiçagem, a resistência contínua dos escravos, o processo de abolição desencadeado a nível mundial, os movimentos sociais que marcaram, essencialmente Santiago, a partir do segundo quartel do século passado16, tiveram como corolário, a extinção progressiva do tráfico negreiro e da escravatura em Cabo Verde.

As primeiras leis que iniciaram esse processo foram publicadas em 1856 e a da abolição efectiva - pelo menos em termos jurídicos - extensiva a todos os territórios coloniais portugueses, em 1878.

Os esclavagistas reivindicaram e conseguiram que lhes fosse concedido um certo tempo para recuperarem o capital investido na compra dos escravos. Por sua vez, as autoridades coloniais puderam dispor de um certo tempo para constituir uma outra alternativa colonial à sociedade escravocrata.

Na primeira década do século XVI, Cabo Verde já exportava peles, couros, sebo, algodão, cavalos, açúcar. Valentim Fernandes (1506-1508)17, ao referir-se à Ilha de Santiago, salientava que esta produzia frutos que eram cultivados em Portugal: figos, uvas melões e "açucares". Mais tarde, Gaspar Frutuoso (1582-1591)18 e Fernão Guerreiro (1600-1603)19 informaram: o primeiro, que Santiago produzia muito açúcar e o segundo, que este açúcar era de boa qualidade. Em 1872-1873 o arquipélago é ainda exportador (337 t) e no início deste século passa à condição de importador (360 t em 1901).

No que diz respeito ao algodão, com a introdução do tear em meados do século XVI, começou-se a exportar panos, sobretudo para o continente africano, e desde os primeiros anos do século XVII, o óleo de baleia, para o Brasil20. Segundo as Provisões de 1791-1792, da preparação da baleia, dois terços revertiam para a Coroa e só um terço cabia às populações, em retribuição do trabalho fornecido para o corte dos cetáceos e a extracção do seu óleo por cozedura.

O leque dos produtos exportados alargou-se nos meados do século XIX. Com efeito, Cabo Verde exportava, além de escravos e panos, algodão, peles, couros, tartarugas, milho, aguardente, sangue de drago21, tabaco, âmbar, urzela, óleo e sementes de purgueira22, e sal. Mas a sua importância relativa já não era a mesma. A exploração da urzela, do âmbar, do dragoeiro, da tartaruga, pertencia à Coroa23.


 
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