
| Formas musicais existentes em Cabo Verde |
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Página 3 de 3 Ainda no mesmo livro Carpenter afirma que um padre chamado Labat descreve uma dança muito parecida, vista por ele em Santo Domingo em 1698 " [...] os bailarinos estão dispostos em duas fileiras; os homens de um lado as mulheres do outro. Saltam, giram sobre si mesmos, aproximam-se, retrocedem para de novo se reunirem ao compasso do tambor [... ] parecia que davam golpes de ventre. Afastam-se logo dando voltas com gestos absolutamente lascivos".O Batuque, de origem africana, que surge em Cabo Verde provavelmente só na ilha de S. Tiago (existente também no Brasil, através da ida dos escravos, e nos Açores, na ilha de S. Miguel), é executado num ritmo de tempo binário mas de divisão ternária, marcado pela percussão das 'tchabetas e palmas' acompanhadas pela cimboa monocórdica, às quais se juntam o canto e a dança. Segundo Dulce Almada o Batuque é uma variante do ritmo de San Jon. Esta teoria tem a sua razão de ser na medida em que o Batuque, inicialmente de ritmo binário, (no Brasil este ritmo manteve-se) isto é, num compasso binário simples de dois por quatro, transformou-se no mesmo ritmo de San Jon que é o compasso composto de seis por oito, pois são compassos correspondentes, cada compasso simples corresponde a um compasso composto e vice-versa. No San Jon o andamento é mais acelerado e a poliritmia é mais complexa. O Finaçon é uma melopeia que consiste num encadeamento de provérbios ou assuntos do quotidiano, declamados, com inflexões vocais, no ritmo de batuque, quase sempre improvisados no momento e normalmente cantado por uma mulher. Esses improvisos podem arrastar-se durante horas. A Tabanca da ilha de S. Tiago (também existente na ilha do Maio), é um agrupamento muito complexo, provavelmente de origem africana. O ritmo da Tabanca é binário, executado por tambores, cornetins e búzios, estes geralmente em três registos diferentes (grave, médio e agudo) responsáveis pelo ostinato rítmico-melódico, cuja tessitura geralmente é de uma sexta. Eutrópio Lima da Cruz escreveu que "trata-se essencialmente duma procissão dançada [...] que mobiliza uma vila inteira ou grupo de pessoas unidas para a vida e para a morte [... ] A dança da tabanca é uma manifestação muito importante na vida do grupo. Esta manifestação colectiva insere o indivíduo num sentimento de solidariedade que confere à procissão uma certa importância e lhe dá uma aparência de organização, magnitude, ritmo e esforço colectivo embora continue sendo um divertimento". Outrora existiram algumas formas musicais, muito em voga na maior parte das ilhas e que eram dançadas nas chamadas "Danças de Salão", como são exemplos: na ilha da Boavista o Rill ('Reel'), dança de origem irlandesa no compasso 6/8, hoje já extinta; o Maxixe brasileiro, também extinto, dança movimentada com base nos ritmos africanos acentuadamente sincopada, de atmosfera quente e sensual. No Brasil foi uma dança das ruas que depois entrou para as salas sofrendo algumas modificações, passando a ter movimentos e passos mais moderados. Alguns estudiosos brasileiros afirmam ser o Maxixe uma variante do Landu. Também em Cabo Verde se dançava o Tango (actualmente faz parte do repertório de alguns grupos de dança), o Schottish ('chotisse' em terminologia caboverdeana); o Galope, dança em ritmo binário ainda hoje presente nas festas de casamento no interior de algumas ilhas, que faz parte da última "marca" da Contradança sendo esta também uma tradição bem conservada nas ilhas de S. Nicolau, Boavista e sobretudo em St. Antão. O Bolero, sul-americano e não o espanhol, ainda é tocado por alguns grupos musicais. A Contradança, segundo Teófilo Delgado, um dos "mandadores" da Contradança da zona de Fontainhas em St. Antão, contém cinco "marcas". Provavelmente com origem na Country-dance inglesa, levada para a Holanda e França nos fins do séc. XVII, adquiriu cidadania francesa, difundindo-se principalmente nas classes médias. Em Cuba a Contradança introduzida pelos franceses acabou por se transformar num género cultivado por todos os compositores crioulos do séc. XIX, com a mudança do compasso 2/4 para 6/8. Em Cabo Verde a Contradança, género instrumental mais ligado à dança, foi talvez introduzida pelos franceses. A Mazurca é uma dança originária da região polaca da Mazúria (no início dança popular, depois dança aristocrática) em compasso ternário com acento nos contratempos. Em Cabo Verde ainda hoje é dançada e tocada em quase todas as ilhas com incidência nas de St. Antão, S. Nicolau e Boavista. No Fogo existe o Rabolo que é uma variante da Mazurca. A Valsa, também no ritmo ternário com o primeiro tempo acentuado, é de origem francesa, baseada na galharda provençal que se dançava dando voltas (donde valsa) com o corpo. Os alemães atribuem a sua origem na Allemande (forma musical). Os austríacos, sobretudo os vienenses, cultivaram-na a tal ponto que graças aos compositores Strauss, se tornou numa dança quase nacional. Em Cabo Verde esta foi muito cultivada pelos músicos e compositores podendo, ainda hoje ouvir-se algumas das valsas antigas ou mesmo feitas pelos músicos actuais. Outras formas musicais também dançadas antigamente são a Polca ou o Fox, entre outras, muito apreciadas pelos músicos, sobretudo pelo grande exímio no violão, Luís Rendall, que foi o maior responsável pela introdução de outra forma musical brasileira, o Chorinho. De todas as formas musicais brasileiras, o Samba é a mais cultivada pelos cabo-verdianos, fazendo parte do repertório tradicional. O Funaná, música em compasso binário, com andamento duplo, lento-médio e rápido, é assim como todas as outras formas musicais existentes em Cabo Verde, ligado à dança. Inicialmente presente apenas no interior de S. Tiago, passou depois para a cidade, com algumas mudanças no campo instrumental. No princípio era executado na 'Gaita de Mon' (concertina ou acordeão diatónico) e ferrinho, depois passou a ser tocado com instrumentos electrónicos a partir da independência de Cabo Verde, ganhando uma certa virtuosidade e enriquecimento a nível harmónico. De acordo com pesquisas feitas junto de pessoas mais velhas, em algumas localidades do interior de S. Tiago, o Funaná antigamente era chamado de 'badjo di gaita'. O movimento mais lento era chamado de Samba (de acordo com uma demonstração feita por um senhor com cerca de setenta anos, o Funaná dançava-se como o Samba era dançado antigamente no Brasil). De S. Tiago, o Funaná viajou para as outras ilhas onde é muito apreciado. Dança-se aos pares com movimentos do quadril cadenciados, sensuais e vivos. A Coladeira, no ritmo binário e de andamento mais moderado que o Funaná, segundo alguns caboverdeanos, apareceu nos anos cinquenta em Cabo Verde. É tocada e dançada sendo também companheira das noites caboverdeanas. É chamada, por algumas pessoas mais velhas, de 'Contra-Tempo', apesar de o termo 'Contra-Tempo' significar fora de tempo, em que a acentuação cai no tempo fraco. A Coladeira varia no ritmo, de acordo com influências sofridas, sobretudo das músicas latino-americanas e brasileiras e mais recentemente o Zouk, este último muito apreciado pelos jovens nas discotecas. No seu livro Mornas e Coladeiras de Frank Cavaquim, Moacyr Rodrigues escreve o seguinte: "As músicas estrangeiras como o Baião, o Fox e mais tarde a Cúmbia, vão nela deixar os seus vestígios porque na mesma família. Em muitas ocasiões Merengues e Cúmbias estrangeiras são aproveitadas em ritmo de Coladeira." Para Jorge Monteiro existem dois tipos de Coladeira: a que nasceu da aceleração do andamento da Morna, isto é, da passagem do compasso quaternário para o compasso binário resultante do cê cortado, e a que nasceu da adaptação dos ritmos estrangeiros no compasso binário. Para Eutrópio Lima da Cruz, a Coladeira é resultante da passagem da Morna do compasso quaternário (4/4) simples, para o compasso binário composto (6/8). A partir destas teorias podem-se fazer algumas experiências com várias Mornas. O curioso é que, ao tentar fazê-la com a Morna Maria Barba acelerando o andamento mas conservando a sua acentuação, instintivamente deparei-me com o ritmo de Landu e não com o da Coladeira como ela é habitualmente cantada. O mesmo se passou com a Morna Força de Crê-Tcheu. A Morna é a forma musical cultivada em todas as ilhas de Cabo Verde. De andamento lento, em compasso quaternário simples, esta música, que é a que mais caracteriza o caboverdeano, quanto à sua origem tem sido objecto de atenção e de preocupação de vários estudiosos como Baltazar Lopes, Aurélio Gonçalves, Jorge Monteiro, Félix Monteiro, Manuel Ferreira, Eutrópio Lima da Cruz e Vasco Martins. Que a Morna sofreu evoluções é um facto inegável, muito embora tenha conservado o seu ritmo. Basta analisarmos e compararmos as mornas das várias gerações, mesmo as mais antigas chegadas até nós, como é o caso de Brada Maria, considerada a mais antiga de Cabo Verde, e segundo Eugénio Tavares, oriunda da ilha Brava. Tem um andamento um pouco menos lento que as posteriores, o tema é único sem partes contrastantes e o ritmo é menos sincopado. As mornas de B. Leza, como se pode comprovar, são diferentes das de Eugénio Tavares. A riqueza harmónica das mornas do primeiro, ganha com a introdução dos acordes de passagem e segundo Baltazar Lopcs isso verificou-se pela influência que Luís Rendall exerceu sobre B. Leza. Vasco Martins em A Música Tradicional Cabo-Verdiana – I A Morna referindo-se ao mesmo assunto, diz: "As situações harmónicas tornam-se mais complexas a partir de Luís Rendall e B. Leza, no emprego de acordes modulativos [... ] quase sempre a modulação é ao tom relativo maior ou menor e é uma característica ao mesmo tempo, que os acordes de passagem, das mornas do B. Leza e pós B. Leza. Hoje assiste-se também a uma predominância do tom maior relativo, o que produz um novo ambiente à morna, menos dramática e melancólica." A própria temática das mornas mudou, embora o mar, o amor, o amor à terra natal, temas que tantos poetas cantaram, estejam ainda presentes. A Morna será sempre a música mais representativa do caboverdeano. Por muito que as pessoas temam pela sua desvirtualização, ela já sofreu influências várias no passado e poderá vir a sofrer ainda outras, mas permanecerá sempre como a morna caboverdeana. Se alguém tivesse dito a B. Leza que não deveria introduzir as modificações de ordem cromática a nível da harmonia, porque, agindo assim, estaria a "estragar" ou a "matar" a Morna e se B. Leza tivesse dado ouvidos a essa pessoa, hoje de certeza, não teríamos mornas como Eclipse, Noite de Mindelo, Lua Nha Testemunha e tantas outras que serão sempre escutadas com o mesmo deleite musical. O que aqui fica expresso, é sobretudo válido para atenuar as fortes criticas de que têm sido alvo os jovens compositores das mornas actuais. Pesquisa feita pela Margarida Brito em 1998. Documentos Consultados: “Os Instrumentos Musicais em Cabo Verde”, pp. 13 a 25, Ed. Centro Cultural Português / Praia – Mindelo (1998) Digitalizado por Domingos Morais em Agosto de 1999. |








