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1ª Página arrow Cultura arrow De Baltasar Lopes, a Obra e o Homem
De Baltasar Lopes, a Obra e o Homem PDF Imprimir e-mail

Depois, ao celebérrimo Seminário-Lyceu (1866) e às suas fornadas de humanistas-professores pertence a nacionalização da Escola, a difusão do saber e o sentimento de posse do livro. José Lopes representa aqui a deriva da fome de ler transformada em exercício artístico da escrita, num magistério tenaz, à António Feliciano de Castilho. E surpreendente será o facto de ter sido capaz de reunir uma tão grande soma de erudição nos domínios da fi lologia, da estilística e da literatura, mau grado as desvantagens do isolamento e da precariedade de recursos naturais.

Andavam pelos vinte e três anos os jovens da terceira geração que, cerca de 1930, depositavam uma fé cega nas virtudes da ciência do tempo entre-as-duas-guerras, entusiasticamente difundida pelo nóvel “Liceu de Mindelo”. Entretanto, desenhavam-se sinais inquietantes do futuro, com o estrangulamento da emigração para a América e o aumento da tensão agressiva na Europa. E o Brasil dava um bom exemplo de “revolução” literária em direcção ao realismo nacionalista, ao mesmo tempo que os Negros antilhanos e africanos de Paris chegavam ao rubro da impaciência.

De Coimbra, o liceal Manuel Lopes interrogava os seus patrícios sobre o papel que lhes deveria caber nesta febre de mutações sociais, regressando a Cabo Verde pouco depois de Baltasar Lopes haver desembarcado com a volumosa bagagem de dois Cursos da Universidade de Lisboa. Mas, ao que se supõe (há vantagem em que certos dados permaneçam ignorados a fi m de alimentarem o discurso especulativo que os faz continuarem vivos), os contactos e a afi nação das ideias do grupo Claridade surgiram de forma bem menos espontaneista do que este entusiasmo deixa pensar.

Quanto a Baltasar Lopes, para traz fi cam os acontecimentos pessoais de onde saíram os que o Autor atribuiu a Chiquinho menino-jovem que “não teria podido vir a ser médico”. Por o virtual futuro clínico ter perdido o navio de carreira, foi-se o projecto. Porém, pouco depois (17/10/1922) segue para Lisboa no Carvalho Araújo, entregue ao comandante Cisneiros, e num único ano “arranca” os 6.° e 7.° anos no “matadouro”, o Liceu Camões em gíria estudantil daquela época.

De 1923 a 1928 faz brilhantemente Direito e, porque “era necessário pensar em ganhar a vida”, em 1926 reconsidera a sua convivência com mestres do Seminário- Lyceu, e infl ecte para as Românicas, que faz em regime de acumulação, concluindo o Curso com idêntico brilho em 1930. Não é com certeza necessário pedir esclarecimentos ao determinismo sociocultural sobre esta vertigem de inclinação humanista, de abertura à fraternidade universal, bem conhecida dos habitantes da república das letras. Ela será o desiderato de uma refi nada cultura especialmente motivada pelos endereços compensadores em direcção aos outros, pretendendo nobilitar uma terra martirizada.


 
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