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1ª Página arrow Cultura arrow De Baltasar Lopes, a Obra e o Homem
De Baltasar Lopes, a Obra e o Homem PDF Imprimir e-mail

A república das letras regista, por vezes, destes casos de entendimento singular. Se as notas e a memória não nos traiem, o jovem caloiro Orlando Ribeiro terá vagamente conhecido o fi nalista crioulo, no longínquo mundo académico do Convento de Jesus, “alto e esguio como um coqueiro”. Depois, muito mais tarde, foi outro crioulo seu Assistente, este de S. Tomé e Princípe que, subrepticiamente, lhe deu a ler Chiquinho, unindo as pontas de dois tempos distantes à espera de reabilitação.

Irremediavelmente, ao que parece. Tanto assim que a ciência “dura” do académico se rendeu à “ciência mole” de Baltasar Lopes-Chiquinho, por reconhecer nela a mais persuasiva introdução à geografi a da fome, fl agelo maior das ilhas de Cabo Verde. A cadeia prosseguiu com A ilha do Fogo e as suas erupções, de Orlando Ribeiro, que moveu o caboverdiano Júlio Monteiro, bem colocado na política, a acudir “a Cabo Verde a tempo de a fome não dizimar mais de um décimo da sua população” (3).

E, para cada qual o seu monumento. O “Monte Orlando” da ilha do Fogo é a eternização de um, e a Obra do outro é uma sinédoque que consigna toda a realidade de todas as ilhas. E esta tem de vir de muito longe. Se na asserção de Arnaldo França “nada nasce do nada” (4), tudo é explicável, até a unidade da cultura que desconhece ter cor a pele dos humanos. Essa pertence à realidade a que nos referimos acima, substância sem retórica, para melhor servir a retórica de uma tríade (hipótese de trabalho) inaugural que atribuimos à sequência Sérvulo de Paula Medina e Vasconcellos, José Lopes e Baltasar Lopes (5).

Como, por vezes, os poetas sabem enunciar a verdade da maneira mais nítida, será produtivo tomarmos como ponto de referência o “Prelúdio” de Jorge Barbosa. Ou “Carta” onde um novo Pêro Vaz de Caminha nos incita à refl exão sobre a respeitável antiguidade registada pela história e pela cultura da nação cabo-verdiana, despistando-nos caminhos que talvez ajudem a desvendar alguns segredos e esclarecer muitas surpresas.

Já dentro da dinâmica gerada pela introdução da Imprensa (Boavista, 1842), são os paladinos da autonomia regional (setembristas revolucionários) que exigem a Escola Principal (Brava, 1848). Como corolário lógico, reconhecemos em Medina e Vasconcellos a prioridade no aproveitamento da “comunicação social” com a fi nalidade de ensinar o desejo possível da vida literária (A Bella Virgem do Mondego, 1847, Um Filho Chorado, 1850, Ao Totinegro, 1950, e Violante, em 1850). No mundo da cultura do livro as regras lógicas funcionam em espiral, admitindo que se o livro depende do escritor este só tem emprego quando solicitado pelo público leitor (6).


 
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