
| De Baltasar Lopes, a Obra e o Homem |
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Página 1 de 7 “Quando o descobridor chegou/ e saltou da proa do escaler varado na praia/ enterrando/ o pé direito/ na areia molhada// e se persignou/ receoso ainda e surpreso/ pensando n’EI-Rei/ nessa hora então/ nessa hora inicial/ começou a cumprir-se/ este destino ainda de todos nós.” Jorge Barbosa, Caderno de um ilhéu“Assim,/ às vezes canto nem sei porquê.../ ...cantares que me saem da alma,/ longinquos/ relembrando um outro que eu fui e agora já não sou,/ mas que quero tornar a ser!” Pedro Corsino Azevedo, Claridade, N.º 1 “Eu não te quero mal/ por esse orgulho que tu trazes;/ Por êste ar de triunfo iluminado/ com que voltas.../ ...O mundo não é maior de que a pupila dos teus olhos:/ tem a grandeza/ da tua inquietação e da tua revolta.” Manuel Lopes, Claridade, N.º 3 “Mamãizinha [...] / Eu sinto/ para além da tua epiderme de jambo dourado/ o lirismo antigo da minha raça/ crucifi cada/ na encruzilhada/de duas sensibilidades...” Osvaldo Alcântara, Claridade, N.º 2 Por nos termos acostumado a ver a pessoa de Baltasar Lopes através do filtro da sua figura de Autor, mesmo quando acontecia encontrarmo-nos para ouvir o patriarca bom conversador, a sua morte recente custará certamente mais do que um acontecimento deveras penoso. Os Autores vão-se reinventando sempre nas Obras que escrevem, servem-lhes de anjo tutelar na vida e, depois, recompensam-se com a sua vitória pessoal sobre o tempo, mesmo que contado por infl uxos e refluxos. Porém, aos que como nós agrafam aos seus os nossos textos poderá, no limite, restar somente o privilégio de uma simbiose amável, feita daquela cumplicidade que só o Autor tem artes de conceder, em retribuição de habitarmos demoradamente a sua Obra. O que não seria decerto pouco, não fora o sentimento da (breve) duração que nos deixam as coisas sempre escassas. A menos que, copiando o Chiquinho do mais lírico conto de Baltasar Lopes, “Pedacinho” [estou em crer que (quase) toda a sua fi cção é carregada de ressonâncias poéticas] procuremos imitar a disposição do (auto)biografado a quem tudo serve de “pretexto e ocasião” (1). Baltasar Lopes é doravante iluminado pela luz de um lugar novo, e sugere-nos o dever de o tomarmos por mais um confrade dos que ocupam a frisa das individualidades de tempo perfeito. Queremos apenas sugerir que é o momento certo para se começar a desenhar a contraface do Autor, o seu outro lado necessário, e defi nitivo, de o Homem e a Obra. E pertence às boas regras deste jogo que tudo aconteça naturalmente, simples visitas feitas sob o olhar auspicioso da “velha senhora” Filologia que ele, aliás, bem conhecia por tê-la frequentado e cortejado assiduamente. E sem remédio, tanto que são ainda recentes as suas crónicas, “Variam Quaedam”, de latinista gozado, nas páginas do ponto & vírgula animado pela irreverente arte gráfica do Leão Lopes (2). Por isso é de propósito que evocamos a palavra do geógrafo, Mestre Orlando Ribeiro, quando num dos nossos encontros de 1983 falou demoradamente do perfi l cultural de Baltasar Lopes. Sublinhava a sua difi culdade em distinguir o apreço pelo escritor da solidariedade fraterna que merecia o seu condiscípulo. Admitia ser difícil levar muito mais além a arte da palavra, como Baltasar Lopes-Chiquinho a explorava na convocação realista da vida humana bifronte, privada e social. |








