
| A Tabanca - O berço da nossa cultura |
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![]() As cores garridas o ritmo quente, as canções alegres, a firmeza do batuque, o rufar dos tambores, marcando compasso ao som dos búzios são imagens que destacam o cortejo da Tabanca das demais manifestações de rua. No entanto, o cortejo constitui uma das facetas de uma manifestação mais complexa, que ainda associa actividades de cultos, socorro mútuo a alegrias e a tristezas, entre outras actividades, que, no conjunto, forma a Tabanca. A Tabanca pode ser definida como associação de mútuo socorro com actividades culturais e festivas em determinados períodos do ano. As suas origens perdem-se no percurso da turbulenta história das ilhas assoladas pelas secas cíclicas e crises alimentares e a consequente desorganização social. A palavra Tabanca pode ser originária dos "Rios da Guiné", área de maior peso no contributo africano na criação do "homem cabo-verdiano". Segundo o escritor cabo-verdiano do século XVI André Alvares de Almada, na altura, Tabanca constituía uma aldeia fortificada. Actualmente na Guiné- Bissau pode ser traduzida simplesmente por aldeia. Porém, em Cabo Verde a Tabanca não significa aldeia nem tampouco festa da aldeia. A associação tem filiados (designados cativos) oriundos de diversos lugares para se associarem a uma determinada Tabanca. Basta o querer e o compromisso de cumprir as regras. Gravitam em torno de um orago, o Santo da respectiva Tabanca, pagam as quotas, participam nas festas do padroeiro, têm direito à missa de sufrágio e a socorro dos outros membros em caso de necessidade. Na prática registe-se que os socorros têm-se centrado nos casos de mortes em que os associados custeiam o enterro, as missas, as rezas, as vésperas e afins. A concentração das actividades festivas entre 3 de Maio, dia de Santa Cruz e 29 de Junho, 5. Pedro, com maior incidência nas festividades de São Baptista, a 24 de Junho, revela simultaneamente a herança dos festejos cristãos portugueses. Esta época do ano coincide com o verão seco da região mediterrânea, altura das romarias. Nesta região europeia, algumas festas de santos populares provieram dum período pagão anterior ao cristianismo. Alguns especialistas associam as fogueiras de São João Baptista, 24 de Junho, às festas pagãs do solistício. Em Santiago, estas festas cristãs encontram-se cruzadas de tradição africana nos ritmos dos batuques, no batimento dos tambores, nas danças das crioulas e nos cantares da Tabanca. Tabanca versus caricatura da sociedade Uma hipótese sobre a origem das Tabancas é a comemoração da festividade de Santa Cruz (hoje também denominada, por vezes, festa de negro) a 3 de Maio. Nessa data os senhores de escravos, movidos por um certo ideal cristão, davam folgas aos seus escravos e toleravam os festejos da Cruz como símbolo da libertação do homem. Cedo as festas acusaram alguns excessos: os escravos organizavam—se numa espécie de exércitos e desfilavam pelas aldeias e, segundo Senna Barcellos, as festas podiam durar vários dias. Organizavam uma espécie de teatro de rua, onde toda a sociedade era representada em caricatura, representavam os governantes, os oficiais, os eclesiásticos, tudo em laia de ridículo. Segundo um documento régio de 1723, estas manifestações deveriam ser restringidas ou mesmo proibidas com receio de os escravos se aproveitarem da concentração e liberdade para efeito de eventual revolta. No entanto, só nos finais do século XIX e na primeira metade do século XX, surgiram diplomas legais proibindo as Tabancas por serem consideradas motivos de desordem pública, ou simplesmente manifestação de cariz gentílica. Esta opinião não foi generalizada. dado que outros opinaram sobre a necessidade da salvaguarda dos espectáculos associados ao desfile. Apesar das restrições e proibições no passado, a Tabanca ainda existe, não obstante quase resumida ao folclore. |









