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1ª Página arrow Cultura arrow A cultura cabo-verdiana e as suas raízes etno-culturais
A cultura cabo-verdiana e as suas raízes etno-culturais PDF Imprimir e-mail

FRUTOS DA INDEPENDÊNCIA

Quase desde sempre, até à data da independência nacional, a cultura e a arte em Cabo Verde foram, invariavelmente, sempre de característica mestiça, notando-se muito pouca influência ou sobreposição da cultura do dominador em relação à cultura e à arte emanantes.

Tanto a música como a dança, a literatura e as artes plásticas possuíam, todas, um cunho de cabo-verdianidade (enformadas), resultante da (pela) mistura das culturas africana e portuguesa, mas que acabaram por se transformar em algo diferente e novo.

A letra das músicas em crioulo e as melodias meio afro e meio europeias; a dança de tom sentimental e lascivo, com forte influência africana, mas mesmo assim recriada; a literatura voltada para os problemas sociais, com os pés fincados no chão árido e a revolta latente marcada pelo vigor contestatário de denúncia perante a situação de seca e de fome em Cabo Verde; e até mesmo as artes plásticas, utilizando, essencialmente, materiais autóctones, como o artesanato de coco, de chifres, de carapaça de tartaruga, de conchas e búzios, atestam bem isso.

A independência nacional, entretanto, traria um outro alento e uma outra perspectiva às artes cabo-verdianas, verificando-se então uma febre revolucionária que se impunha, veemente, em todas as linhas de criação artística.  Na música, foram notórios a linguagem rigorosamente revolucionária com alguns chichés políticos, e o canto esmerado aos feitos revolucionários, aos heróis-pátrios, aos combates travados e às vitórias conseguidas e aos discursos nacionalistas e revivalistas. Contudo, com o passar do tempo, esse contágio foi-se diminuindo e as coisas foram-se depurando, até acontecer um certo distanciamento desses temas. Então verifica-se uma maior preocupação com a criação, a estética e os conteúdos sociais, sentimentais, telúricos e históricos. É claro que a recuperação de algumas tradições musicais manietadas e sufocadas pelo colonialismo, foi a tónica dominante desse período e que veio a resultar numa recriação de alguns valores e matrizes musicais cabo-verdianos. É exemplo disso o ritmo Funaná, que passou a ser executado por instrumentos electrónicos e, depois, por uma via mais original, com a utilização das tradicionais gaitas e ferrinho, juntamente com outros instrumentos. O Batuque e a Tabanca também foram resgatados e, no primeiro caso, levados a espaços urbanos, mas sobretudo para fora da ilha de Santiago, onde nasceram, a fim de serem conhecidos de todos e, assim, fazerem parte da realidade cultural cabo-verdiana, com maior consistência e uma mais ampla base.


 
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