
| A cultura cabo-verdiana e as suas raízes etno-culturais |
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Página 60 de 60 Construção civil, fábricas e barcos são, normalmente, as áreas que escolhem para providenciar os seus destinos, nem sempre satisfatórios como desejados. Mas, enfim, são tantas as voltas e reviravoltas que a vida dá; são tantas e tão complicadas as malhas do destino, que um homem sente, invariavelmente, a necessidade imperiosa de se manter sempre firme nos seus princípios e decisões, a fim de prosseguir sempre em frente e conseguir chegar à meta almejada. Quanto a isso, não pode haver dúvida alguma de que o cabo-verdiano é um exímio mestre, pois, as vicissitudes por que passa, ao trilhar o árduo caminho da emigração, são bastante eloquentes. Realmente, nem tudo é um mar de rosas, como muitos pretendem fazer crer. Muitas vezes, para não dizer, a maioria das vezes, têm de se consolar com uma má alimentação, a correr, no intervalo dos trabalhos, e, outras vezes, têm de se confortar com alojamentos sórdidos e pouco reconfortantes, sem tempo algum para a diversão, ou um momento tranquilo para compartilharem, plenamente, a bênção familiar e outras satisfações pessoais. Mas, felizmente, tudo isso passa perante a antevisão da satisfação que este enorme esforço proporciona. Há que se falar ainda de outras mazelas e percalços que sofrem, como sejam as explorações a que muitos ficam sujeitos, a segregação social no emprego, principalmente aqueles que se encontram na situação de ilegais. Entretanto, tudo isso enfrentam, com arrojo, com estoicidade, pois, o regresso à terra, com o que ganharam lá fora, para investirem em construções próprias, em transportes, agricultura e pequenas indústrias, comércio e outros sectores, é bastante compensatório. Por outro lado, é necessário falar da outra face da moeda dos emigrantes cabo-verdianos. De uma tenacidade ímpar, o cabo-verdiano luta sempre pelo que quer. Muitos emigram, aventureiramente, sem garantia alguma e passam fome, passam frio, e podem até passar os piores momentos da sua vida, mas lutam sempre, pois, é como disse Oswaldo Osório no seu poema "Holanda". "lubrificamos máquinas/alimentamos caldeiras/navegamos por oceanos de fogo e fiordes de gelo/mas foi nos mares da terra nova/no tempo em que de bóston a américa mandava seus barcos baleeiros/para nos contratar/que ganhámos o bronze da nossa pele(..)"/The Best Sailors of the World/ sob bandeiras estrangeiras brigamos guerras que não eram nossas/ para agora amarmos ao ritmo de torno novo/e múltiplas bocas ao nos verem dizem/ Let them get by/ chegamos às docas companheiros/ nas docas com barcos guildas nos olhos e nossa terra nos nossos sonhos/ "chegamos intermináveis para o match/e pusemos todo o nosso esforço na luta/ pusemos esperança na nossa força de trabalho/e quando nos vêem chegar dizem/Let them get by/ aqui ou ali passaremos sempre porque chegamos companheiros/ a esperança transformada em actos nos nossos punhos/a seca o sol o sal o mar a morna a morte a luta o luto/ao nos verem passar dizem que ultrapassaremos os sonhos e o match é em nossa terra que vai terminar". Pode-se ver, por conseguinte, que o cabo-verdiano tem sede de conhecer outras realidades e experimentar outras sensações. E é neste contexto que poderemos enquadrar os novos emigrantes desta última vaga, que se dedicam ao tráfico e contrabando, metendo-se em drogas e outras mafias. A sede que têm de vencer, de conseguir muito dinheiro para levarem uma vida fácil, de luxo, aliada às condições favoráveis desses países, são determinantes nessa opção. É claro que muitos caem em desgraça. São presos e deportados e acabam por chegar à conclusão de que era tudo ilusão. A este propósito, diz Daniel Filipe em "Carta para longe": "o teu sonho marítimo se fez/ realidade num veleiro esguio./- Sei-o agora na foz daquele rio,/que nunca vi e não verei, talvez ... / Gangsters, arranha-céus, Bradway, tentacular,/ dólares, chewing-gum, jazz, ruído de motores:/ a América irreal do outro lado do mar, a doce Shangri-Lá dos meus primeiros amores ... /Bem sei, meu Rai, bem sei que tudo é diferente/ quando se olha de perto a floresta de enganos./ nada lembra, afinal, no trágico presente,/ as líricas visões dos nossos treze anos./No país em questão - pudesses ignorá-lo,/ó meu campeador do eterno, novo Mito!-/já não têm lugar o cow-boy e o cavalo, Thompson, Maynard, Tom Mix, Tarzan e Ricardito!/E a ti que, sob a pele, arvoras a bandeira/ do teu sangue tribal, de estranhos ritos nus, só resta, meu Rai, Harlem e a bebedeira/ a pátria prometida, Robinson, Wright, blues./Regressa à nossa ilha, inda se podes. Vamos/viver, de novo, o sonho do oásis aberto./-Para cada manhã de bruma há sempre um Encoberto/e, em cada Primavera, reflorescem os ramos". E, finalmente, convém dizer que há muito de positivo também na emigração, relativamente à vida social, pois, existem muitos emigrantes que conseguem estudar e elevar o seu nível de conhecimento, ao ponto de conseguirem melhores empregos e integração social. Danny Spínola |








