
| A cultura cabo-verdiana e as suas raízes etno-culturais |
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Página 5 de 60 A Pré-claridosa corresponde, cronologicamente, à literatura anterior a 1936 e é caracterizada por uma escrita de forte influência portuguesa e, por conseguinte, por um estilo romântico e uma obediência cega aos cânones clássicos da escrita de então. A saudade, o amor, a tristeza, a melancolia, os desencontros amorosos e uma certa exaltação patriótica eram notas dominantes, sendo de se destacar nesse contexto alguns nomes como Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, José Lopes e Januário Leite, entre outros. Não obstante essa consonância, Eugénio Tavares e Pedro Cardoso revelaram-se (quase) como os precursores da Claridade, ao defenderem a língua e a escrita do crioulo, escrevendo eles próprios em crioulo, e ao retratarem e contestarem algumas situações sociais degradantes provocadas pelo regime colonial-fascista, revelando-se como avatares da claridosidade com a sua escrita de pendor nativista e pan-africanista. Com a revista Claridade, fundada em 1936 e encabeçada por Baltazar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes, começa a fase da modernidade literária cabo-verdiana, verificando-se então uma ruptura com o estilo clássico de escrita, ao se promover o versilibrismo e ao se distanciar dos temas sentimentais e melodramáticos, para se reivindicar uma escrita voltada para o Homem e para os problemas cabo-verdianos, e, portanto, com os pés fincados no chão, voltados para a Terra-mater, em que a terra seca e árida, o mar, a situação social precária do cabo-verdiano, a exploração e o servilismo da população, a resignação e o espírito evasionista, enquanto dramas existenciais do povo cabo-verdiano, são abordados de forma incisiva. A fase Pós-claridosa, que corresponde a toda a literatura posterior à revista Claridade, é caracterizada por uma heterogeneidade temática e estética, e por uma sucessão de revistas com pretensões de ruptura. Havendo um certo gérmem de cesura nalgumas dessas revistas, e não propriamente na sua essência e no seu todo, pode falar-se, realmente, de alguns escritores que se pugnaram e conseguiram erigir uma escrita renovada, mais universalista e moderna. Tanto as revistas Certeza, O Suplemento Cultural do Boletim Cabo Verde, a Folha Seló, como os seus colaboradores, se evidenciaram por uma postura nacionalista, contestatária, anti-evasionista e profundamente engajada contra a situação social, de crise e de abuso do regime fascista, aprofundando e alargando, por conseguinte, as preocupações estético-ideológicas do movimento Claridade, embora já com uma postura mais inovadora, mais acutilante, mais problemática e irreverente, e de uma maior preocupação estético-literária. Abarcando essa fase e esse modo de escrita, o período que vai até à independência de Cabo Verde, é necessário ainda mencionar a fase pós-independência, que constitui, por sua vez, uma ruptura total com a temática e estética literárias anteriores, sobressaindo-se, nesse contexto, a diversidade de estilos, de temas e de ideologias, consentâneas com a conjuntura de liberdade e abertura ao mundo que se vive em Cabo Verde. |








