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1ª Página arrow Cultura arrow A cultura cabo-verdiana e as suas raízes etno-culturais
A cultura cabo-verdiana e as suas raízes etno-culturais PDF Imprimir e-mail

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Um breve olhar sobre a cultura cabo-verdiana dir-nos-á, em primeiro lugar e fundamentalmente, que ela é mestiça, híbrida, assim como a população, língua e culinária de Cabo Verde.

Alicerçada numa matriz tropicalista, mas também judaico-cristã e greco-latina, a cultura cabo-verdiana possui características singulares, polarizada em dois extremos, que lhe dão um cunho de universalidade.

De facto, o ocidente e o sul, a Europa e a África encontram-se bem presentes na singularidade dessa cultura de homogénea diversidade.

Enquanto país com uma privilegiada posição geo-estratégica, encontrando-se, praticamente, no centro do mundo, entre o Norte e o Sul, o Ocidente e o Oriente, na rota das grandes linhas de navegação e de comércio, Cabo Verde serviu durante muito tempo de placa giratória e de entreposto de escravos trazidos da África e enviados depois para a América do Sul, pelo que acabou por ser um importante laboratório de língua e de aculturação, com a ladinização dos escravos destinados às outras colónias e ao povoamento das ilhas (a partir de 146***). Assim sendo, desde cedo se sedimentou no seio dos escravos (aculturados pelo encontro da cultura europeia com diversas culturas, presentes na diversidade cultural dos escravos trazidos de várias regiões africanas) a abertura e receptibilidade ao diferente, ao estranho, que ao longo do tempo se traduziu numa capacidade de assimilação e moldagem do alheio, consoante as necessidades e os contextos, ao ponto de conseguir transformá-lo em algo totalmente diferente e novo. Assim se explica, por exemplo, a singularidade de algumas manifestações culturais em que se notam, claramente, laivos da África e da Europa, ao mesmo tempo que delas se distancia.

A descontinuidade territorial do arquipélago e o mar possibilitaram, por outro lado, que essas metamorfoses se processassem de forma diferente, no todo territorial, permitindo, por conseguinte, fenómenos de aculturação diversos e, portanto, manifestações culturais diversificadas ( com nuances próprias de ilha para ilha), ao mesmo tempo semelhantes devido a alguns pontos comuns. Esse mesmo factor de diversificação constituiu ainda um importante meio de aproximação e da necessidade de conhecimento, da descoberta do outro, pelo que, desde sempre, o cabo-verdiano cultivou esse gosto de ir mais além, de viajar e transpor o umbigo ilhéu, à procura de novos horizontes. Sendo certo também que foi imprescindível e determinante, nesse processo, o contexto geo-social e histórico da seca, fome e abandono, que ditaram também a necessidade de procura de melhores condições de vida em outras paragens.

Realmente, a situação histórico-social do arquipélago teve um papel marcante na formação da mentalidade e identidade cultural do cabo-verdiano.

Com um país governado por um regime colonial, sustentado por uma sociedade escravocrata, o cabo-verdiano foi explorado, maltratado, espezinhado e votado ao abandono e ostracismo, tendo sofrido não só os maus tratos do colonizador como da própria terra madrasta, a qual, com a falta de chuva, gerou, ao longo dos tempos, situações de secas cíclicas e, consequentemente, fome e mortandade massiva.

Esse conjunto de situações, mais o peso da religião, conjugou-se, pois, na formação de uma identidade e de uma nação com características específicas, sui generis, de base tropicalista, pressupostos da crioulidade e da cabo-verdianidade do povo destas ilhas.


 
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